Wednesday, February 07, 2007

Normandia corintiana

“Trinta anos não são trinta dias” – costumava dizer a vizinha gorda e patusca de Nelson Rodrigues, apaixonada pelas obviedades da vida. De fato, trinta anos é muito tempo. Poucos eventos são perfeitamente recordados trinta anos depois, ainda mais quando esses eventos são corriqueiros como um jogo de futebol. Mas aquele jogo não foi um jogo qualquer. O jogo em si, aliás, nem foi assim tão extraordinário. O extraordinário mesmo, naquele longínquo 5 de dezembro de 1976, foi o estarrecimento. O estarrecimento que eu, aos 11 anos de idade, senti ao entrar no estádio e ter a sensação de que errara de cidade, talvez de planeta. O estarrecimento de ir ao Maracanã torcer pelo Fluminense e me deparar com nada menos do que 75 mil furiosos torcedores corintianos, gritando a plenos pulmões o nome do clube tão amado.

É claro que me refiro ao Fluminense x Corinthians das semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976, confronto que entrou para a história como o da “Invasão Corintiana”. Naquela tarde decisiva, como de costume, fui ao estádio com meu pai, minha mãe, meu irmão e minha avó – a famosa Dona Eulália, não tão gorda, mas certamente mais patusca do que a vizinha do Nelson Rodrigues. A velhinha torcia pelo América, enquanto a minha mãe é botafoguense. Só que, quando o time dos varões da casa entrava em campo, elas solidariamente viravam suas casacas para torcer pela Máquina do presidente Horta. Íamos de camarote, não por pose, mas porque aquelas apertadas caixinhas de cimento, no pior lugar do estádio, atrás da última fila de cadeiras azuis, acomodavam exatamente as cinco pessoas da minha família.

Pois foi assim, em família, que eu acompanhei a queima de fogos da fiel torcida quando seu time – infinitamente mais modesto que a nossa Máquina – entrou em campo. O foguetório durou um minuto e quarenta e três segundos. Para mim, foi como se o trecho final da Abertura 1812, de Tchaikovsky, martelasse na minha cabeça até a consumação dos tempos. Para quem nasceu no subúrbio e jamais havia visto a queima de fogos do Réveillon de Copacabana, aquilo era o Dia D, a invasão da Normandia. A invasão já estava consolidada desde a véspera, quando nossas praias foram tomadas por centenas de ônibus. Faltava a artilharia, que veio na forma e, sobretudo, no estampido dos rojões. Naquele instante, tive a certeza de que o meu time, mesmo com Rivelino, Doval, Carlos Alberto Torres, Edinho, Dirceu, Pintinho e Rodrigues Neto, teria que suar a camisa para vencer o Corinthians.

O jogo acabou empatado, com um gol de Pintinho para o Flu e um de Ruço, numa tão bela quanto improvável meia-bicicleta, para o Timão. Nos pênaltis, Carlos Alberto Torres e Rodrigues Neto perderam os seus, enquanto todos os batedores visitantes converteram: Neca, Ruço, Moisés e Zé Maria. Hoje, aquele time alvinegro, que tinha ainda o goleiro Tobias, Givanildo, Wladimir, Vaguinho, Romeu, Geraldo e Zé Eduardo, poderia ganhar de qualquer um. Mas naquela época o Fluminense tinha o melhor elenco do mundo, uma autêntica seleção – o que só serviu para tornar ainda mais épica a conquista dos “visitantes” (assim mesmo, entre aspas), que levavam 22 anos sem conquistar um título de expressão.

A movimentação de massas produzida pelo Corinthians me obrigou a rever uma frase de Nelson Rodrigues, que, como eu, testemunhou a invasão. Não é o Flamengo que é uma força da natureza, capaz de chover, trovejar e relampejar. Não, Nelson, naquela estarrecedora tarde de trinta anos atrás, a verdadeira força da natureza foi o Sport Club Corinthians Paulista.

Marcos Caetano