Wednesday, February 07, 2007

Normandia corintiana

“Trinta anos não são trinta dias” – costumava dizer a vizinha gorda e patusca de Nelson Rodrigues, apaixonada pelas obviedades da vida. De fato, trinta anos é muito tempo. Poucos eventos são perfeitamente recordados trinta anos depois, ainda mais quando esses eventos são corriqueiros como um jogo de futebol. Mas aquele jogo não foi um jogo qualquer. O jogo em si, aliás, nem foi assim tão extraordinário. O extraordinário mesmo, naquele longínquo 5 de dezembro de 1976, foi o estarrecimento. O estarrecimento que eu, aos 11 anos de idade, senti ao entrar no estádio e ter a sensação de que errara de cidade, talvez de planeta. O estarrecimento de ir ao Maracanã torcer pelo Fluminense e me deparar com nada menos do que 75 mil furiosos torcedores corintianos, gritando a plenos pulmões o nome do clube tão amado.

É claro que me refiro ao Fluminense x Corinthians das semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976, confronto que entrou para a história como o da “Invasão Corintiana”. Naquela tarde decisiva, como de costume, fui ao estádio com meu pai, minha mãe, meu irmão e minha avó – a famosa Dona Eulália, não tão gorda, mas certamente mais patusca do que a vizinha do Nelson Rodrigues. A velhinha torcia pelo América, enquanto a minha mãe é botafoguense. Só que, quando o time dos varões da casa entrava em campo, elas solidariamente viravam suas casacas para torcer pela Máquina do presidente Horta. Íamos de camarote, não por pose, mas porque aquelas apertadas caixinhas de cimento, no pior lugar do estádio, atrás da última fila de cadeiras azuis, acomodavam exatamente as cinco pessoas da minha família.

Pois foi assim, em família, que eu acompanhei a queima de fogos da fiel torcida quando seu time – infinitamente mais modesto que a nossa Máquina – entrou em campo. O foguetório durou um minuto e quarenta e três segundos. Para mim, foi como se o trecho final da Abertura 1812, de Tchaikovsky, martelasse na minha cabeça até a consumação dos tempos. Para quem nasceu no subúrbio e jamais havia visto a queima de fogos do Réveillon de Copacabana, aquilo era o Dia D, a invasão da Normandia. A invasão já estava consolidada desde a véspera, quando nossas praias foram tomadas por centenas de ônibus. Faltava a artilharia, que veio na forma e, sobretudo, no estampido dos rojões. Naquele instante, tive a certeza de que o meu time, mesmo com Rivelino, Doval, Carlos Alberto Torres, Edinho, Dirceu, Pintinho e Rodrigues Neto, teria que suar a camisa para vencer o Corinthians.

O jogo acabou empatado, com um gol de Pintinho para o Flu e um de Ruço, numa tão bela quanto improvável meia-bicicleta, para o Timão. Nos pênaltis, Carlos Alberto Torres e Rodrigues Neto perderam os seus, enquanto todos os batedores visitantes converteram: Neca, Ruço, Moisés e Zé Maria. Hoje, aquele time alvinegro, que tinha ainda o goleiro Tobias, Givanildo, Wladimir, Vaguinho, Romeu, Geraldo e Zé Eduardo, poderia ganhar de qualquer um. Mas naquela época o Fluminense tinha o melhor elenco do mundo, uma autêntica seleção – o que só serviu para tornar ainda mais épica a conquista dos “visitantes” (assim mesmo, entre aspas), que levavam 22 anos sem conquistar um título de expressão.

A movimentação de massas produzida pelo Corinthians me obrigou a rever uma frase de Nelson Rodrigues, que, como eu, testemunhou a invasão. Não é o Flamengo que é uma força da natureza, capaz de chover, trovejar e relampejar. Não, Nelson, naquela estarrecedora tarde de trinta anos atrás, a verdadeira força da natureza foi o Sport Club Corinthians Paulista.

Marcos Caetano

Sunday, January 21, 2007

4x1

(...) foi o placar do jogo do Corinthians que tornou o placar eletrônico do Morumbi conhecido nacionalmente. No Campeonato Brasileiro de 1984, o Corinthians precisava vencer o Flamengo (bi-campeão brasileiro e com um timaço) por dois gols de diferença para chegar às semifinais. Quando o jogo estava 4x1 para o alvinegro paulista, o operador do placar, Emerson Heidi Yto, decidiu provocar os cariocas, colocando os horários da ponte-áerea São Paulo-Rio (8h, 19h, 20h, 21h) sugerindo a volta do Flamengo para casa. Os cariocas não gostaram...

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Corinthians 4x1 Flamengo
Brasileiro / quartas-de-finais
Morumbi, 6 de maio de 1984
Público: 115 002 pessoas

CORINTHIANS: Carlos; Edson, Mauro, Juninho e Wladimir; Paulinho, Sócrates (Wagner) e Zenon; Biro-Biro, Casagrande e Eduardo (Ataliba)

gols: Biro-Biro, Wladimir, Edson e Ataliba (COR) Paulinho, contra (FLA)

Tuesday, January 09, 2007

Paixão se escreve com TH

Corinthiano é uma coisa, corintiano é outra.

Corinthiano é o torcedor fiel, o que enfrenta lua, sol, chuva, granizo, raios e terremotos para ver drapejar a bandeira alvinegra nos estádios e sentir pulsar no peito a cartilagem da alma nas vitórias, nos empates e nas derrotas. Corinthiano somos nós, os devotos de um sonho que se fez um pedaço de nós mesmos.

Já corintiano, assim, mais simplezinho, é quem nasce na cidade do Corinto, no coração de Minas Gerais. Se não acreditarem, procurem no mapa. Corinto fica ali, depois de Curvelo, depois de Morro da Graça, para os lados de Morro de Senhora da Glória. Corintiano é todo bom mineiro de bom gosto que nasce em Corintio. E há também os coríntios, aos quais se dirige o apóstolo Paulo em várias de suas cartas. Portanto, os coríntios estão no Novo Testamento; os corintianos estão em Minas Gerais. E os corinthianos, em toda parte.

Lourenço Diaféria.
"Paixão se escreve com TH" - Jornal Popular - 13.07.94.

Monday, January 08, 2007

Cláudio Christovam de Pinho

O extraordinário ponta-direita corinthiano Cláudio Christovam de Pinho era conhecido como "O Gerente" por ser o principal líder da equipe na década de 40: um verdadeiro técnico em campo.

No Parque São Jorge existe um busto em sua homenagem, onde consta que o jogador marcou em sua carreira no Corinthians 295 gols. No entanto, o pesquisador Cláudio Casella descobriu nos arquivos do Parque São Jorge outros 10 gols marcados por este ídolo corinthiano, em amistosos, o que faz dele o maior artilheiro corinthiano de todos os tempos, com 305 gols.

Cláudio também foi o jogador corinthiano que mais balançou as redes em partidas contra o Palmeiras. Foram 24 gols ao todo, marcados nas décadas de 40 e 50. O jogador da equipe alviverde que mais marcou contra o Corinthians foi Heitor, somente 16 vezes, nas décadas de 20 e 30.

Antes de jogar pelo Corinthians, Cláudio passou pelo Santos e pelo Palmeiras.

Foi três vezes campeão paulista pelo Corinthians, nos anos de 51, 52 e 54, e ainda campeão da Rio-São Paulo nos anos de 50 e 53.

Cláudio faleceu no ano de 2000.

A FIEL, onde todos somos iguais

Foi numa daquelas noites de Pacaembu. Só a vitória interessava. E olha que o vilão desta história não era nenhum bicho-papão, mas, sim, o xv de piracicaba - afinal, que, diferença faz o adversário quando se sai de casa é para ver o CORINTHIANS? E como o Nhô Quim estava dando trabalho aquela noite! Até que, enfim, acabou caindo. Vitória garantida, perto de um final feliz, a FIEL passou, então, a exercitar aquele passatempo de todas as vezes em que as circunstâncias de um jogo permitem: curtir a si mesma. Os gritos partiam sempre dos Gaviões. O primeiro, eu me lembro bem, dizia o seguinte: “É tobogã, é tobogã!” E o pessoal que estava sentado lá do outro lado estádio – lugar menos nobre, mas do qual não há CORINTHIANO que não guarde uma história de seus tempos de grana curta – acenava gritando “Eeeeeee!” Um agradecimento à saudação.
Em seguida, novo grito dos Gaviões: “É numerada, é numerada!” E tome gente mais bem-vestida aplaudindo, alguns até de paletó e gravata (porque vinham direto do serviço), pais, mães, avôs, filhos e netos, famílias inteiras enfim. A homenagem cobria, pela ordem, todos os setores do querido Pacaembu. “Curvinha, curvinha!”, gritavam os torcedores organizados. Logo, também se manifestava aquele grupinho do qual praticamente todos se conhecem pelo nome, tantos os jogos que se reuniram para ver ali, na curva à direita de quem entra pelo portão principal. No fim, para coroar – e agora não só os Gaviões, mas todos os “toboguistas” engravatados, mulheres, crianças, os respetáveis senhores da curvinha e eu - soltamos o grito maior, em uníssono orgulhosos de ser quem nós somos e sempre seremos: “TIMÃO ÊO! TIMÃO EÔ!...”
Naquela noite, parei para pensar no quanto nós, os CORINTHIANOS, somos diferentes. Na verdade, já sabia disso desde a primeira vez em que estive em um estádio, em 1978 (1x1 contra o santos, gols de Romeu e Aílton Lira). Alguém irá dizer: “Ah torcida em estádio de futebol é assim mesmo. Tudo igual.” Bobagem de quem nunca sentou no cimento. O sentimento que une a todos nós, CORINTHIANOS, é único. Impede de ir trabalhar de bom humor no dia seguinte a uma derrota, como se nada tivesse acontecido, como faz boa parte dos são paulinos. Somos sim, obcecados por títulos e vitórias. Mas não a ponto de, em caso de derrota, quebrar troféus e achar, de uma hora para a outra, que ninguém mais no time presta, como faz a maioria dos palmeirenses. E não resumimos o nosso amor a um deus de carne e osso, como fazem todos os santistas com Pelé.
Já vi muito jogo de muito time pelo Brasil e pelo mundo afora. A torcida do CORINTHIANS é maior? É melhor? Não sei nunca contei. É diferente? Tenho certeza. O que sei, também, é que um dos sonhos mais perseguidos pelo ser humano até hoje eu só encontrei no meio da torcida do CORINTHIANS. É a igualdade. Foi este o sonho dos socialistas do inicio do século. Das mulheres nos anos 60. Dos negros até hoje e de bem recentemente, na África do Sul dos tempos do Apartheid. Pois bem: em pouco mais de 30 anos de vida, confesso que o único lugar do mundo onde me senti realmente igual à pessoas do meu lado foi o estádio de futebol. Nem mesmo em uma igreja eu pude sentir sensação semelhante. É no meio da FIEL, que somos todos iguais. Às vezes, acho mesmo que viramos um só. Uma única pessoa, sonhando em preto e branco com a felicidade.

Autor: Celso Dario Unzelte
Fonte: Revista Fiel Torcida nº 1 - Agosto de 1999.

Saturday, December 30, 2006

ENTREVISTA COM IDÁRIO

Em que ano você começou no CORINTHIANS?
Jogava no clube do bairro, a associação atlética da vila Deodoro, no Largo Cambuci. Aí, recebi um convite para ir treinar no sams, que era a sociedade anônima moinho santista. E daí teve um jogo entre o CORINTHIANS e o sams, no Belém, pelos amadores. E nos amadores do CORINTHIANS jogavam Luizinho, Cabeção, Roberto Belangero. Aí o técnico dos amadores do CORINTHIANS, o Pietrobom, irmão do Anacleto Pietrobom, me convidou, pediu para eu fazer um teste no CORINTHIANS. Eu fui.

Você já era lateral-direito?
Já. Fui lá e marquei Colombo. Isso em 1949. Em 1950, passei a ser titular.

Em 50 você já foi campeão?
Em 50, fui campeão do Rio-São Paulo. Em 51 e 52 fui Campeão Paulista. Aí chegamos em 54.

Como era o presidente Trindade?
Era um grande presidente. Ele falava que tinha que honrar essa camisa, porque tinha muitos coitados que deixavam de pagar hospitais para vir ao jogo. Ele entrava no vestiário e dava uma senhora preleção. O Brandão dava preleção antes do jogo e, depois, era o presidente quem falava.

Por que você era chamado de “Sangue Azul”?
Porque eu tinha muita raça quando jogava. Dava o sangue.

É verdade que na final de 54 você estava com a perna machucada e escondeu o fato para poder jogar?
É. Não estava muito legal. Fiquei quieto, não falei nada para ninguém. Queria ser campeão.

Para esse jogo específico, quais foram as instruções do Brandão?
Ficamos na concentração do Tremembé quase uma semana, sem fumar, sem rádio, sem ouvir falar de jogo de futebol. Na preleção, ele falou que era tudo ou nada. Era para jogar com disposição, marcar em cima. Antigamente a marcação era homem-a-homem. Eu marcava o rodrigues e o Homero ficava na cobertura. O Alan fazia a cobertura do Goiano.

E qual foi o ponta-esquerda que lhe deu mais trabalho?
Cheguei a pegar o Zagallo, mas o mais terrível foi o canhoteiro. Era um espetáculo de jogador. Driblava bem. Os dois maiores pontas-esquerdas que vi jogar foram o canhoteiro e o Mário.

Onde você morava nessa época?
Morava na Vila Zelina. Pegava o bonde, descia na Moóca, me encontrava com o Carbone e de lá íamos para o Parque São Jorge.

Como foi aquele jogo contra o palmeiras, muito nervoso?
Foi. Nós entramos em campo com tremedeira. Depois que começou o jogo, aí passou tudo. Do vestiário para o gramado, tinha o túnel e ali era o centro nervoso. O estádio lotado, tinha gente até em cima das marquises do Pacaembu.

E dentro do gramado quem era o grande Líder do CORINTHIANS?
Era o Cláudio. Ele falava com a gente com educação, impunha respeito. Tanto dentro como fora do gramado. Foi uma grande figura humana.

Com o CORINTHIANS campeão, como foi a grande festa?
Foi um carnaval. Fomos para o Anhangabaú com a cobertura da rádio panamericana. O povo todo comemorou.

O que representa o CORINTHIANS na sua vida?
Foi tudo e ainda é. Nasci CORINTHIANO e morro CORINTHIANO. Desejo felicidades para o CORINTHIANS e que ele seja Campeão... (Idário se emociona e não consegue mais falar)

Fonte: CORINTHIANS – 1954 IV Campeão do Centenário

Ficha de Idário:
Nome: Idário Sanches PeinadoNascido em São Paulo, 07/05/1927
Posição: lateral-direito
468 jogos 6 gols
Títulos: Paulista 1951/52 e 1954 (IV Centenário de São Paulo) Rio-São Paulo 1950 e 1953/54

Filho de espanhóis, se identificou imediatamente com a FIEL. Considerado pela massa como o Deus da Raça. “Pega ele Idário, pega!” pedia a massa, e Idário ia lá e pegava, a bola ou o adversário.

Monday, December 25, 2006

PARA MATAR A SAUDADE

Vestiário do Pacaembu em festa. Ídolos de várias gerações se conhecem, se encontram, se reencontram. Lá no fundo, alheio a tudo, o técnico Osvaldo Brandão. “Não dá tchê. Não vou lá que meu coração não agüenta. Parece mentira, mas acho que nunca senti emoção igual.” Parece mentira mesmo. Afinal, o velho mestre, entre tantas outras façanhas, foi campeão do IV Centenário com o CORINTHIANS em 1954 e voltou a sê-lo, 23 anos depois, em 1977. De quebra, Brandão classificou a Seleção Brasileira para vencer a nossa primeira Copa do Mundo. Deixou ainda, o nome gravado tanto na história argentino quanto no futebol uruguaio. Em Montevidéu, por sinal, teve como diretor de futebol um tal senhor Sanguinetti, ninguém menos que o atual presidente do Uruguai. Mas Brandão não teve coragem de chegar perto para ouvir as conversas de Sócrates com Rivelino, de Domingos da Guia com Gilmar, de Wladimir com Zé Maria... Já o lendário Cláudio Cristovam Pinho, o ponta-direita que foi maestro do futebol paulista nas décadas de 40 e 50, fez tudo a que tinha direito. Jogou enquanto pôde, mostrou em comoventes lampejos do que era capaz e saiu aplaudido por uma torcida predominantemente jovem. Aí, deixou trair seu estado d’alma. Suas mãos, muito mais geladas que a linda manhã de outono paulistano, revelavam-lhe o interior. O artilheiro Teleco, que hoje cuida da sala de troféus CORINTHIANOS e que foi cinco vezes o goleador do Campeonato Paulista entre 1935 e 1943, não teve sequer a coragem de Brandão: “Desde que convidaram para esse jogo eu só faço tirá-lo de minha cbaeça. Se vocês ainda me querem vivo, não insistam”, apelava. Todos o querem vivo, é claro, e não insistiram. Com Domingos da Guia não foi preciso insistir. Ele fez questão de vir, embora, constrangido, tenha pedido que o “ajudassem nas despesas da viagem”, o que de resto, estava garantido a todos os que não morassem em São Paulo. E o grande Domingos viajou como pediu do Rio à capital paulista. De ônibus.
Assim foi com cada ídolo convidado. Honra, alegria e “ai de vocês se não me convidassem”. O lateral Wladimir, por exemplo, pagou do próprio bolso as passagens do avião que o trouxe de Belo Horizonte. Amaral, o quarto – zagueiro que joga no México, chegou ao Brasil na sexta-feira e no sábado foi até o Parque São Jorge. Estava indignado por não ter sido convidado. Foi, jogou, e muito bem.

MISTERIOSO CORINTHIANS. GRANDIOSA PAIXÃO.

Sócrates, o homem certo para a hora certa desde que seja alvinegra, se espantava. “Porque essas coisas acontecem comigo?” Ele tinha chorado enquanto ouvia o Hino e feito um gol maravilhoso, de cobertura, o único do jogo. “ Eu jamais tinha feito um assim no Brasil”, revela, sem entender também a exigência dos cavalheiros ingleses que queriam sua presença com a camisa do Corinthian-Casuals. Ou por que a torcida pedia “VOLTA DOUTOR!”. Modesto, o Magrão. E iluminado, embora confuso.

GENEROSO CORINTHIANS.

Humilde conversão.
Rivelino, o homem certo na hora errada, foi escorraçado injustamente em 1974. Voltou agora para, em mágicos 50 minutos, se reconciliar com a massa. Ou, melhor, para perdoar a massa que soube se desculpar. “Essa camisa mexe mais comigo que qualquer outra. Apesar de tudo”, confessava.

PARADOXAL CORINTHIANS. BRANCO E PRETO.

É claro que a linda manhã de céu azul desse 5 de junho não foi completa. Faltou o riso aberto de Sérgio Terpins, o homem errado na hora errada. Não há uma só palavra que console o desaparecimento desse CORINTHIANO que morreu em pleno Parque São Jorge aos 39 anos. Mas quem sabe ele tenha visto o jogo que inventou de um lugar privilegiado, confortavelmente instalado ao lado de seu amigo Flávio La Selva, ex-presidente dos Gaviões da Fiel; do jornalista José Roberto de Aquino: “Todo time tem uma torcida. No CORINTHIANS é ao contrário. É a torcida que tem um time”; e do procurador de Justiça Carlos Alberto Gouvêa Kfouri, meu pai. Quatro mosqueteiros que dariam a vida para viver essa manhã inesquecível.

Fonte: Revista Placar 10/06/1988 - Autor: Juca Kfouri

Dados do 1º amistoso entre o SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA e o Corinthian-Casuals.

Data: 05 de junho de 1988
Estádio : Pacaembu
Juiz do jogo: Dulcídio Wanderley Boschila
Gol: Sócrates 19 do 1º tempo.
Jogo disputado em dois tempos de 25 minutos cada.

Obs: Em 2001, mais precisamente em 29 de maio de 2001, na Fazendinha, ocorreu o segundo jogo entre as duas equipes. O SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA enfrentou o Corinthian-Cauals, com um time repleto de veteranos. Placar do jogo, 9 a zero pro TIMÃO. Detalhe interessante é que antes deste jogo, o time inglês acompanhou a final do Campeonato Paulista de 2001, onde o CORINTHIANS se sagrou Campeão contra o botafogo de RP.Os jogadores ficaram impressionados com a força e a festa da FIEL. E comemoraram junto com a torcida mais um título do TODO PODEROSO SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA.

Wednesday, December 20, 2006

CORINTHIANS 1 x 0 São Paulo - 1990

Havia um clima de magia no ar. Desde a noite da quinta-feira, 13, havia um clima de magia no ar. Magia negra. E branca. Branca e preta. Nem bem começou o primeiro jogo da decisão, Wilson Mano, o predestinado, fez, de joelho, que vale igual a um lindo gol de bicicleta, o tento que invertia a vantagem inimiga e dava ao Corinthians o direito de jogar pelo empate. A noite era quente e a torcida corintiana fervia. Tomou conta de mais de 70% da casa do adversário e acuou o time tricolor. A noite era mágica. Tanto que não permitiu à única estrela do Timão, o meia Neto, marcar o segundo gol, embora ele tivesse três enormes chances para fazê-lo. Não, a noite tinha que ser de Mano, o curinga que, em 1988, errou um chute de fora da área e, assim, permitiu que Viola fizesse o gol do 20º título paulista do Corinthians, em Campinas, contra o Guarani. Pois Mano abria o caminho para o primeiro título brasileiro do clube. Havia um clima de magia no ar. Terminado o jogo, a quente noite da quinta-feira se transformou. Relâmpagos cortaram o céu do Morumbi e, de trovão em trovão, a chuva torrencial desabou. Tupã, o deus da chuva, dava o ar de sua graça. A sexta-feira foi feia, cinzenta e quase fria na capital paulista. Assim mesmo os corintianos faziam filas intermináveis para ocupar a casa alheia no dia da decisão. O sábado não foi diferente. Mas no domingo... No domingo havia um clima de magia no ar. O amanhecer foi ensolarado. São Paulo não era São Paulo. Era Corinthians. Com televisionamento direto e tudo, 85 mil corintianos tomaram o Morumbi, espremendo 15 mil tricolores em três gomos do estádio. No primeiro tempo o São Paulo dominou o jogo, mas não teve nenhuma chance de gol. O 0 x 0 era tudo que o Corinthians precisava. Mas era pouco. Aos 9 minutos do segundo tempo, a magia se materializou numa tabelinha histórica entre Tupãzinho e Fabinho, com direito a bola por baixo das pernas do zagueiro Ivan.
O gol foi chorado como devem ser os gols inesquecíveis da nação corintiana. Tupãzinho encerrou 19 anos de abstinência nacional. Como na noite da quinta-feira, Tupã comandou um enlouquecedor espocar de rojões. Pela primeira vez, os representantes do Brasil na Libertadores serão os dois clubes mais populares do país, pois o Flamengo, campeão da Copa do Brasil, será o parceiro do Timão. Com 32 pontos ganhos, ninguém somou mais que o time cujos segredos estão fora de campo: o moderno técnico Nelsinho e a antiga fiel torcida. Com o treinador, a equipe aprendeu a não dar um centímetro ao adversário e ganhou autoconfiança. Da massa, os jogadores souberam tirar a energia de que nem mesmo supercraques como Rivelino e Sócrates foram capazes para ganhar um Brasileiro. Aliás, nada mais parecido com a torcida do que esse time do Corinthians. A tal ponto que o novo deus Tupã era o anão do jogo, o mais baixinho, com seu miúdo 1,69 metro. Agora é sonhar com Tóquio. É ganhar o mundo. Impossível prever o que poderá acontecer neste dia. Previsões, por sinal, só mais uma e a curto prazo: Marlene Matheus será a primeira presidenta de um grande clube de futebol. Só tinha que ser no Corinthians, o campeão brasileiro de 1990.

16/12/90 - Morumbi (São Paulo)
CORINTHIANS 1 X 0 SÃO PAULO

Juiz: Edmundo Lima Filho (SP);
Renda: Cr$ 106 347 700; P: 100 858;
Gol: Tupãzinho 9 do 2º;
CA: Flávio, Márcio e Jacenir; E: Bernardo e Wilson Mano 15 do 2º.

CORINTHIANS: Ronaldo, Giba, Marcelo, Guinei e Jacenir; Márcio, Wilson Mano, Tupãzinho e Neto (Ezequiel); Fabinho e Mauro (Paulo Sérgio).
T: Nelsinho Baptista

SÃO PAULO: Zetti, Cafu, Antônio Carlos, Ivan e Leonardo; Flávio, Bernardo e Raí (Marcelo); Mário Tilico (Zé Teodoro), Eliel e Elivélton.
T: Telê Santana

Autor: Juca Kfouri.

Oração de um poeta do povo

Dom Paulo,
No momento em que a Fiel Torcida comemora a conquista do vigésimo título de campeão paulista, tenho a honra de lhe enviar um poema que corresponde a uma página do meu modesto trabalho "Corinthians em Poesia".
Peço que o senhor perdoe o fato de eu não estar usando o tratamento compatível com as elevadas funções exercidas pelo senhor, mas isto não é uma carta, é um simples bilhete, escrito de corintiano para corintiano, o que equivale a dizer: "de coração para coração".
Como alguns amigos católicos criticaram, achando que eu não deveria misturar esporte com religião, gostaria muito de saber sua opinião a respeito, pelo que ficarei muito grato.Com muito carinho e respeito,

Alonso A. Nápoles.


Vasculhando o baú de lembranças, caiu-me nas mãos o singelo e elegante quadro impresso em cartolina e letra artística, efetiado com o distintivo do nosso glorioso time, que seu gentil autor, Alonso de Athayde Nápoles, me enviou, contendo a bela oração que desejo partilhar com meus leitores. Veio de Cubatão, com bilhete de próprio punho, datado de 8 de Agosto de 1988:

A Última Oração

Ó Grande Deus, Senhor do Universo!
Agora que se aproxima o fim da estrada,
Agradeço a tudo o que por mim fizeste,
Pelos favores que me concedeste,
Para amenizar a árdua caminhada.
Obrigado, Senhor, por teres permitido
Que um raio da excelsa luz que de Ti emana
Invadisse meu coração desde o primeiro alento,
Não se afastando dele um único momento,
Mantendo acesa em meu peito a chama corintiana.
Foi esse o maior de todos os favores,
Porque essa luz sagrada e tão querida,
Merecedora de todos os louvores,
Símbolo do amor maior entre os amores
Iluminou, guiou, meus passos durante toda a vida.
E, se me for concedido um último desejo,
Submetido, afinal, ao Teu juízo egrégio,
Que eu tenha lucidez para enaltecer Tua glória
E, no velho peito, um forte brado de vitória
Para merecer o derradeiro privilégio,
De poder gritar pela última vez: Corinthians!


Alonso ainda teve a delicadeza de dedicar o quadro com estas palavras:

A dom Paulo Evaristo, querido Pastor de todos os paulistas, com muita emoção, oferece o autor,
A. A. Nápoles.


FONTE: Dom Paulo Evaristo Arns, "Corintiano Graças a Deus!"

Tuesday, December 19, 2006

O Ataque dos 100 Gols

O título do IV Centenário da cidade de São Paulo (1954), decidido no ínicio de 1955, é muito lembrado por causa do grande esquadrão que o CORINTHIANS possuía e que encantava a torcida com um futebol empolgante.

Porém, vale lembrar que a base desse time foi formada alguns anos antes, no final da década de 40 e mostrou todo o seu potencial na conquista do bicampeonato de 1951/1952.

E foi justamente no ano de 1951 que o alvinegro do Parque São Jorge atingiu a excepcional marca dos 103 gols marcados em um campeonato, sendo o primeiro clube a conseguir tal proeza no regime profissional.

Por causa desse feito, o ataque CORINTHIANO ficou conhecido como o “ATAQUE DOS 100 GOLS”.

O legendário ataque do CORINTHIANS era formado por Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário. O autor do centésimo gol foi Carbone, que terminou o campeonato de 1951 como artilheiro, com 30 gols.

Participaram da campanha vitoriosa os seguintes jogadores: Cabeção (Gilmar); Homero (Murilo) e Rosalén (Alfedo); Idário, Cicia (Touguinha/Lorena) e Julião (Roberto/ Sula); Cláudio (Jackson), Luisinho, Baltazar (Nardo), Carbone e Nelsinho (Mário/ Colombo).

O CORINTHIANS disputou 28 jogos, sendo 24 vitórias, dois empates e duas derrotas. Sua defesa sofreu 37 gols.

Artilheiros de 1951

Jogador / Gols

Carbone 30
Baltazar 25
Cláudio 18
Luisinho 13
Jackson 09
Nelsinho 02
Colombo 02
Mário 01
Sula 01
Idário 01
Roberto 01

Fonte: CORINTHIANS em Revista nº 11 outubro de 1994

Tri-campeonato, com invasão à cidade de Santos...

O Corinthians fazia boa campanha, tendo nos seus calcanhares o Santos. No dia 4 de janeiro de 1931, os dois se encontraram, como mandavam a tabela, para decidir o campeonato. Nos pontos, a vantagem é do Corinthians, que tinha dois a mais. Mas o jogo seria na Vila Belmiro, onde o Santos alcançava bons resultados.

Para aprimorar ainda mais seus jogadores, o time da Baixada se concentrou durante uma semana em uma chácara; os alvinegros da Capital só alteraram sua rotina ao viajar para Santos na véspera do jogo - e não no dia, como acontecera em outras ocasiões. O jogo foi cercado de enorme expectativa.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo cerca de mil carros, particulares e de aluguel, viajaram para Santos. Da Estação da Luz, partiram na tarde de sábado e na manhã de domingo vários trens repletos de corinthianos.

O cronista do Estadão descreveu assim aquela tarde: "Por volta das 13 horas, não havia lugar disponível nas archibancadas e geraes. Os espectadores, de roupas claras, suavam por todos os póros. Leques improvisados, cartões, jornaes, lenços. Não havia etiqueta. E os mais desembaraçados ficaram em mangas de camisa."

Logo no segundo minuto de jogo, Feitiço fez 1 a 0, deixando a impressão de que o Santos venceria com facilidade. Pura impressão. Aos 20, Gambinha empatava e, aos 27, ainda do primeiro tempo, Filó colocava o Timão na frente.

Dominando totalmente o seu adversário, o Corinthians foi tocando o jogo. Os pontas Filó, de um lado, e De Maria de outro, infernzaram a vida da confusa e assustado defesa santista. O cronista do Estadão se espantou com a facilidade com que agiam os jogadores corinthianos que não pareciam sentir o calor que ele classificava de "senegalesco". Já o time do Santos foi tachado por ele de apático.

Assim aos 14 minutos do segundo tempo, De Maria fez o terceiro gol; dois minutos depois Gambinha fazia 4 a 1. "O tiro de misericórdia", no texto do mesmo cronista, veio através de Napoli, aos 27 minutos: 5 a 1. Quando faltavam cinco minutos para terminar, Victor fez o segundo gol do Santos, recebido com total frieza por seus companheiros e torcedores.

Estava escrita mais uma página na notável história corinthiana. Fechava-se mais um tricampeonato.

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SANTOS 2x5 CORINTHIANS
Campeonato Paulista 1930


Data: 4 de janeiro de 1931
Estádio: Vila Belmiro
Árbitro: Victorino Sylvestre
Público: 20 mil

Corinthians: Tuffy; Grané e Del Debbio; Leone, Guimarães e Munhoz; Filó, Napoli, Gambinha, Rato e De Maria
Técnico: Virgilio Montarini

gols: Gambinha (2), Filó, De Maria e Napoli (SCCP) e Feitiço e Victor (SFC)

Monday, December 18, 2006

"com o pé, com a mão, o Corinthians é campeão!"

Ano de Copa do Mundo, 1938 teve o Campeonato Paulista interrompido entre março e outubro. A final do Paulistão daquele ano foi inusitada: contra o São Paulo, e bastava o empate para conquistar o título. No domingo, 23 de abril de 1939, o São Paulo vencia por 1 a 0 até os 21 minutos do primeiro tempo, quando um temporal impediu a seqüência do jogo. A continuação foi marcada para terça-feira no Parque São Jorge com portões abertos, e o Corinthians teve tempo para empatar com um gol de Carlito (o Turco) que muita gente diz que foi com a mão.

Como a torcida do São Paulo reclamou muito, os torcedores corinthianos passaram a responder: "com o pé, com a mão, o Corinthians é campeão!"

Era a conquista do décimo título estadual e do terceiro bi-campeonato do Corinthians.

CORINTHIANS 1x1 SÃO PAULO
Campeonato Paulista 1938

Datas: Domingo, 23, e terça-feira, 25/abril/1939
Estádio: Parque São Jorge
Árbitro: Thomaz dos Reis Cardoso de Almeida
Renda: 66 contos e 445 mil réis

Corinthians: Barcheta; Jango e Carlos; Tião, Brandão e Sebastião; Lopes, Servílio, Teleco, Carlito e Carlinhos
Técnico: Armando Del Debbio

gols: Mendes (SPFC) e Carlito (SCCP)

Friday, December 15, 2006

Corinthians, com s e com h

Miguel Bataglia não era um homem habilidoso apenas com as mãos. Era uma pessoa que sabia ouvir. Entre agulhas, linhas, tesouras e botões, o alfaiate era uma espécie de unanimidade no bairro do Bom Retiro. Fumante inveterado, magro, adorava ver esportes em geral. Praticar, nem pensar. Sua alfaiataria era um ponto de encontro e lá se ouvia de tudo. Desde fofocas maldosas sobre essa ou aquela senhora de aparência tão honesta, até as intermináveis polêmicas sobre os jogos de futebol que reuniam a fina flor da sociedade em clubes como o Paulistano e o Mackenzie.

Foi numa dessas conversas que Bataglia soube da idéia alimentada pelo grupo de operários, uma idéia então já mais avançada. O clube se chamaria Santos Dumont ou Carlos Gomes, e era preciso um bom dinheiro para arrendar um terreno perto do ponto final do bonde do Bom Retiro. O alfaiate tinha sido escolhido para arcar com o aluguel. Teria, como compensação, a honra de ser o primeiro presidente do clube.

Na noite do dia 1º de Setembro de 1910, um grupo já ampliado resolveu plantar a semente que, graças às peripécias que a equipe inglesa do Corinthian Football Club acabara de aprontar em vitoriosa excursão pelo eixo Rio-São Paulo, recebeu o nome de Sport Club Corinthians Paulista, agregando um sutil s ao nome inglês, que surgira em homenagem à cidade grega de Corinto.

Se o s entrou como, digamos, contrabando, duro foi manter o h, que boa parte da imprensa teimou em suprir até tempos mais recentes, modernismo superado hoje em dia. Nomes são nomes e devem ser respeitados em sua grafia original. Ainda mais esse nome.

Thursday, December 14, 2006

Ainda em 1977

A festa do título de 1977 tinha sido alguma coisa jamais vista. O país inteiro saiu às ruas para comemorar a conquista que tardara mas não falhara. Valia tudo. A massa ensandecida tinha um só refrão: "Corinthians campeão, pau no cu do meu patrão!" Porque no dia seguinte, ninguém foi trabalhar...
Corinthiano é assim mesmo. Quando o alvinegro ganha, até o mais alienado dos cidadãos percebe que alguma coisa realmente importante aconteceu.
Foi assim também, por exemplo, em 1968, quando o Corinthians quebrou um tabu de 11 anos sem vitórias contra o Santos de Pelé no Campeonato Paulista. O Rei nega, mas certamente ele sempre foi ao menos um corinthiano pelo avesso, tanto que escolheu o Corinthians para ser o time contra quem mais vezes marcou, nada menos que 49 gols em 41 jogos. Daí aquela vitória na noite de 6 de março de 1968 ter um gosto especial. Pelé estava em campo e o Pacaembu, lotado. Paulo Borges, o Risadinha, rapidíssimo atacante que viera do Bangu, e Flávio, o Minuano, artilheiro trazido do Internacional gaúcho, fizeram os gols da vitória de 2 a 0.
Quebrada a maldição, partida encerrada, a torcida foi em passeata até o Parque São Jorge e, ironia das ironias, cantava feliz: "Um, dois, três, o Santos é freguês!" Quem via, não acreditava, olhos postos no passado. Só que, muito mais que uma gozação, o bordão era um vaticínio, típico de quem olha para frente, para o futuro. Porque daí pra frente, o Santos virou freguês mesmo.
Mas voltemos a 1977. Corinthians e Ponte Preta fariam dois ou três jogos para decidir o campeonato. No primeiro, o Mineiro Palhinha, que viera do Cruzeiro, fez um gol literalmente com a cara e a coragem, no rebote de uma defesa do goleiro campineiro Carlos, e o Timão ganhou de 1 a 0. Estava tudo pronto para a festa que deveria acontecer no domingo seguinte.
Morumbi lotado por mais de 140 mil corinthianos, recorde que jamais será batido nesse estádio. Vaguinho, outro mineiro, este vindo do Atlético, faz 1 a 0 para o Corinthians. Ele havia acabado de entrar no lugar de Palhinha, desgraçadamente machucado no começo do jogo. A Ponte vira para 2 a 1 e adia a festa. Nunca o Morumbi se parecera tanto com o Maracanã de 1950. Mas tinha o terceiro jogo. Na segunda-feira, em clima de velório e tensão no Parque São Jorge, o técnico Osvaldo Brandão vai ao departamento médico para verificar o estado de Palhinha e o encontra já de saída após ter feito tratamento. "Como é, Palha, dá pra jogar?", pergunta o velho mestre. "Acho que não, seu Brandão. Dói até pra andar", responde o craque. "Se dá pra andar, dá pra jogar. Pior é minha dor, que não consegue nem levantar da cama, Palha", replicou Brandão, cujo filho, paixão da sua vida, se encontrava em estado terminal, tomado por um câncer.
Palhinha, de fato, não conseguiu entrar em campo para a finalíssima. Mas o que ele jogou a partir daquele momento para que o time fosse campeão ficou registrado como um dos momentos mais comoventes e grandiosos da história do futebol. Ele conseguiu contagiar a equipe inteira com o relato da cena que vivera com Brandão e tirou de cada um a promessa que o título viria e seria dedicado ao pai e ao filho, que logo depois, faleceu.
O título veio, como ninguém na face da terra desconhece. E reabriu uma série de outras festas. A do título de 1977 foi tão intensa que a nação alvinegra passou 1978 de ressaca, nem aí para as demais competições em que o time participava por mera obrigação. O importante não era participar, nem competir. O importante era festejar, sabe-se hoje à luz do tempo.

Juca Kfouri, Corinthians Paixão e Glória.

Wednesday, December 13, 2006

Sócrates Corinthiano

"Virei corinthiano jogando pelo Corinthians, e é evidente que a nossa Democracia Corinthiana teve a ver com isso. Não era só eu, era a democracia que estava em jogo, éramos nós contra o resto. A tal ponto que fomos bicampeões paulistas em 1982-1983 com um time inferior ao do São Paulo. Podíamos ter perdido, mas era difícil perder. Porque quando você junta dois amantes não tem quem destrua isso. Ainda mais amantes no auge da paixão. Aquele negócio que a gente tinha era paixão pura. E criamos uma comunidade ali, não havia concorrentes, como em qualquer time onde há os que jogam e os que não jogam. Nunca ninguém viveu isso. Cada um a seu modo, todos sentem saudades daquela verdadeira irmandade que se criou.

Ali nós juntamos tudo. A fome com a vontade de comer. A necessidade com a sensibilidade e a ideologia. E tudo era votado. Perdi e ganhei mil vezes, e até para trazer o Leão a gente votou. A maioria concordava que aquele era um cara difícil, mas prevaleceu que era um senhor goleiro. Foi á única pessoa que me ouviu dizer, cara a cara: "Você é um filho da puta, tá querendo me sacanear". Ficou com ar de vítima, mas depois jogou pra cacete. Sem ele não teríamos ganho o bicampeonato.

Para sintetizar, se é que é possível sintetizar, eu sei que nunca vivi nada parecido. Eu nunca me senti tão à vontade em qualquer ambiente como naqueles dois anos da Democracia Corinthiana. Foi uma coisa especial, o sonho que todo mundo tem.

Sabe aquela coisa de estar apaixonado o tempo todo? É lindo, pô!"

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, em "Paixão e Glória", de Juca Kfouri.